Após atingir a mínima do ano em março, o Ibovespa engatou um movimento de alta, mantendo-se acima dos 50 mil pontos e próxima de atingir os 60 mil pontos. A divulgação de pesquisas eleitorais tem sido dada como justificativa para explicar os movimentos de alta mais forte, como o verificado ontem, quando o índice fechou com ganho de 2,27%.

De acordo com uma pesquisa feita pela XP Corretora, explorando as expectativas individuais de seus clientes, em caso de vitória da Dilma, a pesquisa mostra que 90% dos consultados acreditam que o Ibovespa cairá abaixo dos 40 mil pontos. Se Marina Silva (PSB) ganhar, a expectativa é o índice acima dos 50 mil pontos. O cenário mais otimista, considera a vitória de Neves, com o índice superando os 60 mil pontos.

No entanto, associar o desempenho do pregão única e exclusivamente aos movimentos no front político pode ser considerado superficial, tendo em vista os eventos internos e externos que têm influenciado o índice.

Para o diretor da Mirae Asset Securities, Pablo Spyer, após a mínima do ano a Bolsa voltou a subir e encerrou março em 50.414 pontos. No mesmo momento, foi divulgada a primeira pesquisa eleitoral mostrando o candidato Aécio Neves (PSDB) na segunda posição, mas com possibilidade de melhorar os números. No entanto, Spyer lembra que a crise geopolítica na Rússia começou a se intensificar e muitos investidores que tinham dinheiro alocado naquele país saíram e começaram a migrar para países emergentes, entre eles o Brasil. “A Bolsa começou a subir e alguns investidores falaram que é por pesquisa eleitoral e, não era", afirma. “O índice é uma fórmula de vários fatores exógenos, macro e micro, aqui e lá fora. Não é verdade explicar o movimento da Bolsa só com pesquisa eleitoral”, pondera.

O economista-chefe do grupo Órama, Álvaro Bandeira, também não acredita que as eleições tenham um peso tão decisivo sobre o Ibovespa, como a pesquisa da XP Investimentos, divulgada na semana passada, dá a entender. “O cenário eleitoral influencia diretamente o desempenho das ações de empresas sob gestão do governo, como a Petrobras, as companhias do setor de energia elétrica e o Banco do Brasil. As variações são momentâneas e seus efeitos são de curto prazo”.

Segundo Bandeira, a médio e longo prazos, a tendência é de que a Bolsa continue sua trajetória ascendente, impulsionada pela força dos investidores estrangeiros e pela defasagem de valores das ações brasileiras. “Entraram no País desde o início do ano cerca de US$ 17 bilhões para investir num mercado acionário subvalorizado, ainda muito distante do teto que atingiu antes da crise financeira”.

Segundo o profissional, mesmo com a deterioração das contas públicas brasileiras, o cenário internacional ajuda. Nos EUA, a economia da sinais mais forte de recuperação, enquanto na Europa, e expectativa é de mais incentivos para tirar o bloco da estagnação. Outro fator a animar Bandeira é a recuperação dos resultados financeiros das empresas brasileiras. “Chegamos ao fundo do poço neste segundo trimestre. A partir de agora a tendência é de melhora. As empresas se ajustaram e já vão buscar resultados que não obtiveram no primeiro semestre”, conclui Bandeira.

Spyer observa ainda que o aumento do volume de negócios no índice futuro sinaliza que o investidor está otimista com o Brasil. “É um momento de otimismo. Externamente há mais confiança no Brasil”, diz. No caso das opções de venda estarem crescendo, confirma uma operação de hedge, em que o investidor aposta na alta, mas tem a opção na queda, caso haja mudança de rumo.

Para o gerente de renda variável da H. Commcor, Ari Santos, ressalta que o investidor de curto prazo vem operando em cima do resultado das pesquisas eleitorais, o que pode explicar o movimento de alta do Ibovespa cada vez que a pesquisa mostra que a presidente Dilma Rousseff, candidata a reeleição, está perdendo espaço para os adversários. “A alta vem sendo pautada em pesquisas e não nos fundamentos das empresas e da economia”, avalia, ressaltando ainda que passado o momento eleitoral, o mercado tende a voltar à racionalidade. “O investidor vai voltar a olhar o que de fato pesa, inflação, PIB, superávit, resultado das empresas, etc”, pondera. Ele ressalta ainda que seja quem for o novo presidente o fundamental é adotar medidas que tragam a economia para a rota de crescimento.

O professor do Ibmec-DF, especialista em administração financeira e finanças empresariais, José Kobori, o movimento da Bolsa tem sido influenciado, prioritariamente, pelas pesquisas eleitorais, mostrando que o investidor está insatisfeito com o atual governo.

Sobre comentários que analistas de instituições têm feito em relatórios sobre o impacto da eleição no movimento da Bolsa, o sócio da área de mercado de capitais do Veirano AdvogadosCarlos Lobo, ressalta que é uma opinião pessoal e não representa a voz da instituição a qual ele trabalha. “As instituições tendem a se posicionar, quando necessário, de maneira oficial, e não por meio de analistas. As opiniões de um analista são respeitadas por isso, pela profundidade e pela seriedade do trabalho que ele faz.”