A meta da BM&FBovespa de trazer mais de 80 empresas para o mercado de acesso parece bastante ambiciosa - na opinião, de especialistas, ainda deve levar um tempo para que a bolsa seja povoada por companhias de menor porte. Mas a percepção é que as iniciativas para incentivar a listagem das pequenas já provocaram uma faísca nos bastidores e elevaram o interesse de companhias pelo financiamento via mercado de capitais.

Intermediários de ofertas de ações, como bancos e assessores legais, ouvidos pelo Valor apontam que entre 10 e 15 empresas de menor porte estariam preparadas para realizar uma oferta quando o mercado se mostrar mais amigável às estreias. "As empresas têm consciência de que o mercado agora não é muito positivo para uma emissão de ações. Mas com as novas medidas temos sentido uma demanda muito maior de companhias interessadas na listagem", afirma Fernando Machado, gerente da área de mercado de capitais do Banco Votorantim.

A instituição financeira foi a coordenadora da oferta inicial de ações da Senior Solution no ano passado, que marcou a reestreia dessas operações no Bovespa Mais. Até então, a única oferta no segmento tinha ocorrido em 2008, com a fabricante de fertilizantes especiais Nutriplant.

A Senior Solution relata que é muito procurada por companhias que buscam entender melhor como é o processo de listagem e oferta. O interesse foi tanto que a empresa, cujos negócios são voltados ao mercado financeiro, decidiu incorporar a demanda, com a criação de uma área de consultoria para listagem, que atualmente trabalha com oito companhias que querem acessar o mercado.

"Tivemos uma demanda mais alta depois da nossa oferta, mas houve uma diminuição com a retração da janela de mercado. Agora, depois das medidas, já vemos de novo um interesse grande em entender como funcionam os prazos e os custos", afirma o presidente da fornecedora de softwares para o mercado financeiro, Bernardo Gomes.

Veirano Advogados, que também trabalhou na oferta da Senior, está assessorando três companhias de olho na listagem num futuro próximo. A percepção geral é que companhias que já têm participação de fundos de private equity estão mais preparadas para o processo de abertura, com estrutura de governança bem estabelecidas. "Para essas empresas, a principal preocupação era a disponibilidade dos investidores. E, com as medidas recentes, há maior interesse por ativos com esses perfil, o que aumenta a chance de sucesso", diz o sócio Carlos Lobo.

Segundo Cristiana Pereira, diretora de desenvolvimento de empresas da BM&FBovespa, uma companhia leva em média três anos se preparando para poder abrir o seu capital. "Muitas já têm investimento de fundos de private equity e por isso estão mais adiantadas no processo", afirma.

O principal empecilho para o avanço da listagem, no entanto, ainda é a cultura das empresas de médio porte, que, por vezes, relutam em fazer mudanças na forma de gestão para se adequar às exigências do mercado. "É uma mudança de mentalidade que precisa ser trabalhada", comenta Pedro Rudge, sócio da gestora Leblon Equities. "Um dos desafios dessas empresas menores é terem o mínimo de profissionalismo e estrutura para serem abertas, porque no dia seguinte muda o patamar, com acionistas cobrando, querendo ter informações."

E uma das preocupações, diz Rudge, é que essa nova leva de companhias que se enquadram nos benefícios seja formada por um grupo de qualidade para estimular o interesse dos investidores.

Uma pesquisa realizada pela Deloitte em 2012 mostra que, de 73 companhias com faturamento até R$ 500 milhões, 20% apontam a "falta de maturidade" como a principal barreira para a entrada na bolsa. O receio de abrir mão do controle aparece em segundo lugar, com 15% das respostas, seguido pela dificuldade de atrair investidores, com 9%. Questões mais técnicas, como exigências regulatórias excessivas, complexidade e burocracias do processo aparecem apenas na segunda metade da lista, com 7% das respostas cada.

Empresas ouvidas pela reportagem demonstram uma certa insegurança de "testar o território". Quatro companhias de olho na abertura do capital nos próximos anos avaliam as medidas como positivas e dizem que o interesse em usar o mercado como fonte de financiamento cresceu. Mas todas afirmam estar aguardando que alguém tome a iniciativa para avaliar como o mercado recebe as ofertas. "Estamos ainda estudando [a listagem], não faz parte dos planos de curto prazo, mas permanece no radar. Queremos ver primeiro como algumas empresas vão se comportar", diz Marcelo Miranda, presidente da construtora residencial Precon Engenharia, que já participou de uma edição do Fórum de Abertura de Capital, promovido pela Bolsa.

Entre as empresas que já fizeram suas ofertas (hoje são sete as beneficiadas pelas medidas), a percepção é que a isenção fiscal dada a pessoas físicas no ganho de capital já surtiu efeito, ainda que discreto. Segundo Ricardo Pansa, presidente da Nutriplant, o contato desse tipo de investidor, o mais representativo em sua base acionária, tem crescido desde a publicação da Medida Provisória Nº 651, há pouco mais de um mês. Gomes, da Senior Solution, relata aumento de 25% na base de pequenos acionistas, de 400 para cerca de 500 investidores.

O diretor de mercado de capitais da corretora XP Investimentos, Paulo Gouveia, afirma que a procura por parte das pessoas físicas pelo investimento incentivado em ações ainda não deslanchou. Mas diz acreditar que num momento mais positivo para a bolsa a medida deve atrair mais interesse. "A nossa experiência mostra que toda a renúncia fiscal que o governo fez em ativos financeiros para pessoas físicas acabou pegando em algum momento. Foi o caso de recebíveis imobiliários e debêntures de infraestrutura. No médio prazo, esperamos que isso ocorra também para as ações", explica.

Para especialistas, contudo, o grande salto de liquidez deve vir com os fundos de investimentos para o mercado de acesso. Nesse sentido, a participação da BNDESPar como investidor âncora em ofertas é aguardada com ansiedade. O braço de participações acionárias do BNDES poderá investir até R$ 1 bilhão em ofertas públicas no mercado de acesso, concedendo garantia firme de subscrição em até 20% da operação.

E o BNDES ainda fez uma chamada pública para selecionar um gestor para o Fundo de Investimento para o Mercado de Acesso, que poderá ter 30% de participação do banco, com patrimônio potencial de R$ 250 milhões. O fundo vai atuar tanto no pré-IPO quanto após a abertura de capital, auxiliando na liquidez dos papéis negociados de empresas com o compromisso de serem listadas e negociadas no mercado de acesso.

Um total de 13 gestores manifestou interesse em gerir o fundo e seis propostas foram selecionadas até o momento, segundo o superintendente da área de capital empreendedor do BNDES, Luiz Souto. O escolhido deve ser anunciado no início de setembro e o lançamento do fundo, que vai depender da velocidade da captação de investidores, deve ocorrer em 2015.

Machado, do Votorantim, afirma que outro incentivo importante deve vir de alterações na Instrução 476 da CVM para permitir a oferta de ações com esforços restritos. A exemplo do que já acontece com debêntures, as ofertas de ações que forem feitas a um grupo restrito de investidores institucionais poderão ser feitas de forma mais ágil. "Além de reduzir as burocracias e os custos, o que é ainda mais relevante para empresas menores, vai ser possível aproveitar janelas de mercado com muito mais agilidade", afirma o executivo. As mudanças foram colocadas em audiência pública e agora a autarquia analisa as contribuições feitas ao texto da instrução.

Ainda segundo Machado, o mercado trabalha com a perspectiva de uma janela oportuna para o lançamento de ações num horizonte de cerca de nove meses - ou seja, um número maior de estreias não deve acontecer até o fim do primeiro trimestre de 2015. Segundo ele, contudo, essa demora pode ser positiva para as empresas menores, na medida em que dá um tempo maior para que afinem as teses de investimento. "O investidor de small caps é muito mais seletivo, pois vai ficar anos carregando aquele papel", ressalta.